24 de out de 2007

Quadrinhos pra lá de Bagdá

Gostaria de fazer alguns comentários sobre duas obras recentes (leia-se do ano 2000 pra cá) de quadrinhos: Persépolis e O Menino do Kampung. Duas obras primas das chamadas graphic novels, ou quadrinhos para adultos ou ainda literatura em quadrinhos. "Talvez as pessoas tenham se cansado de graphic novels estranhas e bizarras, e agora queiram algo mais normal" - essa frase do cartunista Lat, do Menino do Kampung talvez situe bem essas obras no cenário mundial.
A semelhança entre elas, além do traço simples, não-realista, é o fato de serem espécies de auto-biografias de seus autores e também de ambos serem de origem muçulmana e terem surgido a partir da agitação causada pelos terroristas naquele 11 de setembro. Ambas vieram a saciar a curiosidade ocidental pela cultura do povo de lá.

A primeira, foi até adaptada ao cinema, e mostra as visões de mundo da autora na época da guerra do Irã e Iraque, no início dos anos 80, quando tinha cerca de 9 anos. Retrata sua interpretação de um mundo em transformação, a luta entre as tradições (pintadas por ela como um tanto hipócritas) e a modernidade emergente. O filme causou antipatia dos iranianos, pois macula a imagem da "causa" - a autora era filha de militantes políticos e não é exatamente a favor das opiniões do governo iraniano. A temática políca é constante. Trechos do filme, que concorreu em Cannes, estão no Youtube. A animação é muito bem feita e fiel aos desenhos originais.

De um tom mais leve, o Menino do Kampung narra a infância do autor num vilarejo rural da Malásia (um Kampung). É uma beleza. Os desenhos simples me lembraram o brasileiro Cannini. O autor Lat mostra delizadeza e sensibilidade ao retratar um mundo que praticamente não existe mais. Ele descreve cuidadosamente as tradições, os hábitos, as brincadeiras, as leituras do alcorão. Se Persépolis traz antipatia por alguns aspectos do mundo islâmico - talvez com razão - o Kampung nos leva lá dentro e mostra um lado bem humano, de pessoas normais e simples, e mostra que há sempre dois lados numa moeda, e afinal, exalta o sentimento de humanidade, de compaixão. Tem um trecho para ser lido no site: http://www.lojaconrad.com.br/trecho/kampung_p1.asp

Um comentário:

Pagino disse...

Show de matéria, Rapa. Tri interessante. Abraços